O que a Serra nos dá

O que a Serra nos dá

O Alentejo é seco.  Também é honesto quanto a isso. Verões longos, chuvas intensas no inverno, água que chega forte e desaparece rapidamente. Todas as quintas aqui planeiam em função do que cai entre outubro e abril, e do que fica em julho.

Temos sorte de uma forma específica. A Serra d'Ossa corre ao longo da nossa vinha, e a serra atrai chuva que, de outra forma, não nos passaria.

A nossa vinha tem mais chuva do que a média regional, um presente silencioso de geografia que molda o que o vinho se torna. Mas a água aqui não é um recurso para gastar. É uma história para guardar. 

 

A Nora, ainda a trabalhar

Na orla da vinha encontra-se uma Nora — uma abóboda histórica de tijolo, com uma roda de água restaurada no topo.

A roda gira. Já não trabalha. Uma bomba moderna eleva o que a roda outrora elevava, para um tanque afundado abaixo do solo.

O Nora ainda cumpre o seu antigo trabalho. Retém a chuva que a Serra envia. Mantém-na há mais de cem anos.

Nos primeiros dois meses do ano de crescimento, as videiras bebem apenas dessa água armazenada. Sem necessidade de outras fontes. 

Onde vivem os primeiros meses 

Ao lado do Nora estão o velho poço e o tanque. A água da chuva é armazenada, não acumulada. É gasta cedo, quando os bacelos e videiras mais precisam. Isto não é sentimentalismo sobre os hábitos tradicionais. É aritmética.  O que poupamos em maio e junho é o que não temos de tirar em julho.

Água apenas quando a vinha pede 

A água é fornecida por um sistema moderno — irrigação por gotejamento, válvulas e sensores enterrados no solo que indicam humidade e temperatura à profundidade das raízes.

Cada emissor entrega apenas o que a videira precisa, quando a videira precisa. Sem aspersores. Sem inundações. Sem nevoeiro matinal a evaporar. Uma vinha com a pressão certa faz um vinho melhor. Uma videira pressionada de forma errada faz vinho pior. Os sensores dizem-nos qual é qual. O sistema antigo e o novo não competem. Nenhum dos dois trabalha sozinho.

O que vem a seguir 

Observe o telhado da adega. Paredes caiadas, o tipo de edifício que se mantém nesta paisagem há gerações. O que ainda não tem são caleiras.

O próximo projeto é a recolha de água da chuva no telhado. Cada tempestade que cair nesse telhado será apanhada, armazenada e colocada de volta no sistema que já corre desde o Nora e o tanque.

Numa pequena quinta, o armazenamento é a limitação, não a intenção. Estamos a analisar os números. Preferimos fazê-lo uma vez, corretamente, do que anunciá-lo antes de ser real. 

Da água ao vinho

Os nossos vinhos são com as castas Touriga Nacional e Aragonês, a partir de vinhas que este ano regadas maioritariamente de uma Nora restaurada. Esse facto não aparece no rótulo. Aparece no vinho.

Serra d'Ossa dá-nos a chuva.  A Nora armazena. A bomba distribui.  Os sensores racionam-na. As vinhas agradecem.